14 de janeiro de 2018

O Meu Belo Sol Interior


O Meu Belo Sol Interior, de Claire Denis (2017), foi inspirado pelo famoso livro Fragmentos de Um Discurso Amoroso, em que Roland Barthes reflecte sobre os dilemas das relações afectivas – não só heterossexuais. No filme seguimos as aventuras sentimentais de uma pintora (Juliette Binoche) de meia-idade com os homens com quem se vai relacionando. O Meu Belo Sol Interior assenta em confrontos verbais longos e cansativos em que os parceiros da protagonista debitam as banalidades que se convencionou serem tipicamente masculinas, suscitando uma insatisfação que também se convencionou ser tipicamente feminina: enquanto os homens pretendem apenas relações breves, a protagonista procura uma relação mais duradoura. O facto de as banalidades discursivas ficarem quase todas a cargo dos homens, quando o próprio discurso feminino sobre o amor pode ser igualmente rico em dislates e absurdos, não contribui para tornar o filme interessante. Além disso, enquanto o livro de Barthes explora subtilezas e percepções mínimas, O Meu Belo Sol Interior fica à superfície, insistindo em lugares-comuns para os quais a paciência do Cinéfilo Preguiçoso se vai mostrando escassa. Parece ser intenção do filme proceder a uma abordagem irónica ao papel das palavras na vida, nas relações humanas e no cinema: a protagonista surge quase sempre enredada em conversas sem saída e só encontra alguma paz e felicidade quando o silêncio se impõe. É inevitável, no entanto, por um lado, duvidar-se um pouco da ironia de diálogos que já ouvimos em tantos sítios diferentes e, por outro, sentir falta de protagonistas femininas que não tenham a vida afectiva como preocupação exclusiva – em contraste, ver, por exemplo, a personagem de Isabelle Huppert no filme L’Avenir, de Mia Hansen-Løve. Claire Denis é (a par, por exemplo, de Jean-Claude Brisseau ou Alain Guiraudie) uma daquelas realizadoras cuja originalidade e ousadia contribuem muito mais para a riqueza do cinema francês do que alguns nomes bem mais mediáticos. Fica-se à espera de um filme seu que se aproxime da excelência do extraordinário Beau Travail (1999), do belíssimo 35 Rhums (2008), ou ainda desse maravilhoso filme-entrevista a Jacques Rivette (co-realizado por Serge Daney) chamado Jacques Rivette, le Veilleur (1990).

7 de janeiro de 2018

Roda Gigante | O Amante de Um Dia

O Cinéfilo Preguiçoso, além de desejar um feliz 2018 a todos os seus leitores, viu dois filmes durante a época festiva. Em Roda Gigante (2017), Woody Allen mostra mais uma vez o seu interesse por personagens femininas poderosas mas emocionalmente frágeis e a quem os incidentes da vida e as suas próprias escolhas encurralaram num beco sem saída – recordemo-nos, por exemplo, de Melinda e Melinda (2004) e de Blue Jasmine (2013). A personagem principal, Ginny (Kate Winslet – excelente como sempre), empregada de mesa num restaurante do parque de diversões de Coney Island, falhou por completo uma carreira de actriz sobre a qual continua a fantasiar. Ironicamente, esse desencanto coincide com a percepção de que o destino a obriga permanentemente a representar um papel na vida real. Esta ideia da vida como representação é um leitmotiv do filme, reforçado pelo narrador (Justin Timberlake), um nadador-salvador que também é estudante de dramaturgia e que se envolve romanticamente com Ginny e com a enteada desta (Juno Temple). Para lá desta ideia principal e das fantasias polícromas que o grande Vittorio Storaro se permite, reforçando o lado kitsch e artificial do filme, passado quase exclusivamente num ambiente de feira, Roda Gigante acrescenta pouco à filmografia de Allen. Da mesma maneira, O Amante de um Dia (2017) é o tipo de filme incapaz tanto de conquistar os mais refractários à estética de Philippe Garrel como de afugentar os seus fãs. Mais uma vez, Garrel mostra-nos personagens aprisionadas nas armadilhas do amor e do ciúme, embora plenamente conscientes destas e resignadas com as consequências. A cidade de Paris, filmada num preto-e-branco sóbrio e quase lúgubre (obrigado, Renato Berta), é o cenário apropriado para um enredo simples de matriz realista, mas que deixa espaço para um lirismo discreto. Ninguém sai indemne dos filmes de Garrel; contudo, a resiliência moral das personagens propicia frequentemente finais quase felizes, em que o instinto de sobrevivência, mais do que a sabedoria, vem ao de cima.

17 de dezembro de 2017

Good Time


Good Time, de Ben e Josh Safdie (2017), visto no videoclube de uma operadora de telecomunicações, apesar de vir marcando presença em vários tops dos melhores filmes do ano, não convenceu grandemente o Cinéfilo Preguiçoso. À semelhança de Vão-me Buscar Alecrim (2009), dos mesmos realizadores, tem como protagonistas dois irmãos, (um deles com uma deficiência, em Good Time), com encarregados de educação inadequados, para não dizer perigosos. Vão-me Buscar Alecrim, no entanto, era um filme mais subtil, onde os efeitos das drogas não se traduziam necessariamente em violência, movimento imparável e cores berrantes. Em Good Time, os irmãos separam-se logo numa das sequências iniciais, depois do assalto a um banco, passando um deles o resto do filme numa correria desenfreada, ao som de banda sonora de Oneohtrix Point Never, em busca de dinheiro para pagar a fiança do outro. Com movimentos próximos do documentário,  a câmara segue Connie (Robert Pattinson) de acção desastrada em acção desastrada – depois do assalto, Connie tenta convencer uma namorada descontrolada (Jennifer Jason Leigh, no registo habitual) a emprestar o dinheiro necessário, a seguir liberta o recluso convalescente errado num hospital, pensando que se trata do irmão, passa por um parque de diversões à noite, investiga o comboio-fantasma onde o segundo escondeu um saque qualquer que pode dar dinheiro e termina num arranha-céus de aspecto desumano e cercado de muros e quintais labirínticos onde o segurança do parque de diversões vivia. Visto que, até certo ponto, nenhuma destas acções parece ter consequências, a estética lembra bastante a dos jogos de vídeo. Alguns momentos de Good Time recordam igualmente Martin Scorsese e, quando o mau gosto domina, aquilo que poderia ser um filme de Danny Boyle com pretensões artísticas. A influência de John Cassavetes também parece fazer-se sentir. Se nos abstrairmos destas filiações mais ou menos voluntárias, Good Time resume-se às suas peripécias e ao seu frenesim narrativo e deixa o espectador à míngua de algum aprofundamento das relações entre as personagens ou de vestígios mais palpáveis de cunho pessoal.

O Cinéfilo Preguiçoso regressará em Janeiro. Boas festas para todos.

10 de dezembro de 2017

O Quadrado


Quanto vale a Palma de Ouro do Festival de Cannes? A questão é legítima em face de uma certa tendência dos júris das últimas duas ou três décadas para premiarem filmes isentos de mérito cinematográfico (Fahrenheit 9/11 de Michael Moore) ou francamente pomposos (Sono de Inverno de Nuri Bilge Ceylan, O Laço Branco de Michael Haneke) e realizadores simpáticos, mas que não ficarão certamente para a história (Jacques Audiard, Ken Loach). Há que reconhecer que, ocasionalmente, o galardão tem sido atribuído a obras-primas (Elefante de Gus Van Sant, O Tio Boonmee… de Apichatpong Weerasethakul) e a filmes ambiciosos que deixaram o Cinéfilo Preguiçoso bastante céptico mas que foram aclamados por alguma crítica (A Árvore da Vida de Terrence Malick, A Vida de Adèle de Abdellatif Kechiche). Antecipando desde já o balanço final relativo ao filme O Quadrado (Ruben Östlund, 2017), pode dizer-se que não traz desprestígio à Palma de Ouro mas também não a engrandece por aí além. O filme situa o seu enredo no mundo da arte contemporânea: uma exposição em torno de uma obra minimalista composta por um quadrado luminoso serve de pretexto ou catalisador para uma série de histórias, situações e vinhetas mais ou menos remotamente ligadas aos temas da confiança e da solidariedade. Um dos principais problemas do filme é a coexistência de várias linhas narrativas dispersas e pouco coesas: o argumento é um agregado de ideias que nunca chegam a formar um todo. Inevitavelmente, muitos dos episódios soçobram na inconsequência, como é o caso do envolvimento entre a personagem principal, director artístico de um museu de Estocolmo (Claes Bang – uma boa surpresa) e uma jornalista americana (Elisabeth Moss, cujo talento merecia uma personagem menos superficial). É também deprimente ver como Östlund escolhe um alvo tão fácil (a arte contemporânea) para as suas críticas contra a indiferença e hipocrisia da sociedade ocidental, sobretudo quando as críticas não primam pela subtileza (não falta sequer a anedota clássica do empregado de limpeza que varre parte de uma instalação). A capacidade de explorar o lado cómico das situações que descreve é um dos pontos fortes do filme, contrastando salutarmente com a obra de Michael Haneke, para citar o exemplo de um autor que se move em temáticas semelhantes e já recebeu duas vezes o prémio máximo em Cannes. O Quadrado é um filme que deixa algumas expectativas sobre o que Östlund fará quando, e se, aplicar às suas obras maior disciplina criativa e abdicar de atacar espantalhos para fazer crítica social.

3 de dezembro de 2017

O Dia Seguinte


Esta semana vimos O Dia Seguinte, de Hong Sang-Soo (2017). Este realizador coreano gosta de jogar com a repetição. No início de O Dia Seguinte encontramos um editor dividido entre três mulheres que poderiam ser a mesma em três idades diferentes (juventude, início da idade adulta, meia-idade): todas encenam crises emocionais à frente dele, com uma intensidade francamente desajustada ao carácter medíocre e pusilânime da personagem. À repetição do feminino neste filme, alia-se a simulação de uma repetição estrutural: como em Sítio Certo, História Errada (2015), O Dia Seguinte inclui uma segunda parte que dá a ver de um modo diferente os episódios da primeira. A dada altura percebemos que a situação mudou e, recordando o filme de 2015, suspeitamos que se contará a mesma história, mas com alguns pormenores diferentes. Sucede, contudo, que na segunda metade de O Dia Seguinte, apesar de Hong retomar as personagens da primeira parte, procura-as tempos depois: não há narrativas alternativas, mas sim uma prolepse tão discreta quanto inesperada. O caos emocional da primeira parte já se converteu em resignação desencantada e os actos e personagens que pareciam importantes nessa altura são reduzidos à insignificância. A terceira figura feminina, da jovem que tanto interesse suscitara ao protagonista na primeira parte, visita-o na editora e ele só a custo se consegue lembrar de quem ela é; a segunda figura feminina (a amante, no início da idade adulta) desvaneceu-se com o tempo; só a relação conjugal do protagonista permanece. Os temas, a maneira despojada e lúdica de contar uma história e de enquadrar, assim como os diálogos intermináveis, bem regados com soju, são reconhecíveis por qualquer fã de Hong Sang-Soo, um cineasta extremamente prolixo que atingiu uma fase na carreira em que se permite a reincidência e um esboço de autocaricatura que se tornariam inevitavelmente irritantes num realizador menor. Para lá do estilo e das preferências formais, aquilo que interessa a Hong é, ainda e sempre, o amor, as consequências das escolhas individuais e a fragilidade das relações humanas. Parecem assuntos banais: é preciso ver um filme de Hong (mais do que um, de preferência) para perceber o que a sua abordagem tem de profundamente original. Talvez este seja o maior elogio que se pode fazer a um realizador de cinema.

Outros filmes de Hong Sang-Soo no Cinéfilo Preguiçoso: The Day He Arrives (2011), Haewon e os Homens (2013), Sítio Certo, História Errada (2015).