27 de abril de 2015

La Sapienza | Une Histoire Américaine




O Cinéfilo Preguiçoso está no IndieLisboa! Os dois filmes vistos até agora, La Sapienza (Eugène Green, 2014) e Une Histoire Américaine (Armel Hostiou, 2015) têm em comum a origem (França) e o facto de serem maioritariamente falados numa língua que não o francês (italiano e inglês, respectivamente). As semelhanças ficam-se por aqui. Eugène Green permanece fiel ao seu estilo: grandes planos frontais, dicção extremamente cuidada e artificial, rigor quase maníaco na composição dos planos. Os encontros e desencontros de dois pares (marido e mulher, irmã e irmão) entre a Suíça italiana, Turim e Roma e as revelações suscitadas pela obra do arquitecto barroco Borromini são mostrados com a limpidez programática que fazem do visionamento de qualquer filme de Green uma experiência estética poderosíssima. Em Une Histoire Américaine, pelo contrário, dominam a deriva e a improvisação (aparente ou não), igualmente devedoras da Nouvelle Vague e do Cassavetes de Shadows. Os méritos desta segunda longa-metragem de Hostiou fundam-se em grande parte na presença de Vincent Macaigne (visto nos ecrãs portugueses em A Rapariga do 14 de Julho) e no lirismo amargo com que é filmada a cidade de Nova Iorque, cenário da obsessão do protagonista pela mulher com quem viveu um passado que não nos é dado ver.

20 de abril de 2015

Carta de Uma Desconhecida



Baseado numa novela de Stefan Zweig, o filme “Carta de Uma Desconhecida” (Max Ophüls, 1948) conta os encontros e desencontros de um casal, representado por Joan Fontaine, no papel de Lisa Berndle, e Louis Jourdan, no papel do pianista Stefan Brand. O filme é narrado a partir da carta de despedida da personagem feminina. Ao longo do tempo, acompanhamos a ascensão e a queda da carreira de Stefan. Lisa descreve-o como «alguém que anda à procura de alguma coisa mas ainda não conseguiu encontrá-la». Esta lacuna traduz-se a nível profissional e sentimental; apesar de fazer sucesso nas salas de concerto e com as mulheres, Stefan não se sente feliz. Ainda que Lisa identifique Stefan como o grande amor da sua vida desde o início, este revela-se incapaz de a reconhecer (literalmente) nos diversos momentos em que com ela se vai encontrando ao longo do tempo. O reconhecimento e a compreensão, demasiado tardios, ocorrem com a leitura da carta. Falhar este reconhecimento implicou falhar a própria vida. Os famosos movimentos de câmara de Ophüls, vigorosos mas extraordinariamente delicados, e a soberba interpretação de Joan Fontaine contribuem para o lugar de destaque do filme na carreira deste realizador.

13 de abril de 2015

Roma, Cidade Aberta | Paisà



Os caprichos das distribuidoras que operam no diminuto mercado português deixam o Cinéfilo Preguiçoso fora de si. Um exemplo entre tantos: “Clouds of Sils Maria”, de Olivier Assayas, várias vezes anunciado e cujo rasto na lista de próximas estreias é agora impossível de encontrar. Constata-se com alívio que a carência de novidades é em parte compensada por algumas reposições. Na retrospectiva de Rossellini que o Nimas está a mostrar, podemos comparar entre si dois dos três filmes da chamada “trilogia da guerra”: “Roma, Cidade Aberta” (1945) e “Paisà” (1946), além da proximidade cronológica, partilham o cenário de uma Itália abalada pelos últimos estertores da Segunda Guerra Mundial e o estilo despojado que os guindou, com ou sem razão, ao estatuto de representantes do neo-realismo. Setenta anos depois, torna-se claro que “Paisà”, graças à agilidade da realização, ao equilíbrio notável entre os diferentes episódios, à quase total ausência de retórica e à capacidade de fazer coexistir acção e clarividência psicológica, envelheceu melhor. Porém, a força de “Roma, Cidade Aberta”, que tanto deve à interpretação extraordinária de Aldo Fabrizi, permanece intacta. Estes filmes voltarão a passar nos próximos dias 27 e 29 de Abril. Por essa altura, o IndieLisboa já estará aí, para alegria de todos.

6 de abril de 2015

Na morte de Manoel de Oliveira


Nos anos 80 e 90, Manoel de Oliveira era amiúde remetido para a categoria de realizador para as elites intelectuais e acusado de fazer filmes impenetráveis pela perspicácia do cidadão comum. Passadas duas ou três décadas, superadas todas as expectativas de longevidade e de reconhecimento internacional, as reacções à morte deste realizador insistem de forma surpreendente na sua faceta mais ligeira: repetem-se em círculo as anedotas ligadas à boémia dos anos 20 e ao salto com vara ou as momices chaplinescas. Talvez a vontade de privilegiar esta imagem mais superficial e clownesca surja como reacção às pulsões hagiográficas que se manifestaram e continuarão a manifestar (ah, o Panteão!), mas não há desculpa para remeter para segundo plano a extraordinária dimensão e complexidade artística da obra de Oliveira. A melhor homenagem é ver e rever os filmes. Para isso seria importante que estes estivessem mais acessíveis, ou em sala ou em DVDs a preços aceitáveis.