27 de julho de 2015

A Essência do Amor



 
Os filmes de Terrence Malick sempre suscitaram alguma ambivalência ao Cinéfilo Preguiçoso. No caso de Badlands (1973), esta ambivalência resolve-se pela positiva; noutros casos, como o grandiloquente The Tree of Life (2011), este cinema desencadeia a rejeição e a impaciência. A dificuldade fundamental da estética do realizador parece residir num certo fascínio pela superfície das coisas e dos acontecimentos, paradoxalmente associado à insistência em ir em busca de presenças e significados mais profundos. Este é simultaneamente o elemento mais forte e mais fraco do cinema de Malick. No seu pior, esta característica produz sequências totalmente decorativas, quase a resvalar, ou resvalando mesmo, para o anúncio publicitário de perfumes ou de moda (pessoas bonitas a correr em paisagens bucólicas, efeitos de luz, pássaros a voar, crianças a brincar ou a andar de bicicleta, voz-off que enuncia verdades supostamente profundas geralmente relacionadas com sentimentos, etc.). No seu melhor, no entanto, os filmes de Malick deixam o espectador a pensar sobre a presença humana no mundo. A Essência do Amor (tradução de To the Wonder, real. Terrence Malick, 2012) está entre o melhor e o pior de Malick. Percebe-se que sob a história de uma relação que corre mal entre Neil (o inexpressivo Ben Affleck) e Marina (a ornamental Olga Kurylenko), sobre a qual se enxerta o comentário de um padre em plena crise espiritual (Javier Bardem), há de facto preocupação em pensar sobre diversos tipos de amor e sobre o que significa estar vivo, mas os elementos mais decorativos do cinema deste realizador diluem as percepções fugazes que o filme propicia. Obviamente, alguém que se sinta próximo deste tipo de estética dirá que Malick pretende precisamente construir e explorar estes desequilíbrios. Neste sentido, “A Essência do Amor” é um filme conseguido e plenamente coerente com o resto da obra de Malick, mas de que nem todos conseguirão gostar.