28 de fevereiro de 2016

Nostalgia



Andrei Tarkovsky escreveu o argumento de Nostalgia (1983) com Tonino Guerra, contando a história da passagem do escritor russo Andrei Gorchakov (Oleg Yankovsky) por Itália, com o objectivo de investigar a vida do compositor Pavel Sosnovsky (séc. XVIII), acompanhado pela guia Eugenia (Domiziana Giordano). O espaço principal de Nostalgia situa-se na Toscânia, mais especificamente em Bagno Vignoni, uma povoação entre Siena e o lago Bolsena. Contudo, muitos elementos do filme, como a catedral com o fresco de Piero della Francesca ou a casa de Domenico, o louco (o maravilhoso Erland Josephson, nosso conhecido dos filmes de Ingmar Bergman), fundem interiores e exteriores de espaços diferentes. O sentido da palavra «nostalgia» é esclarecido logo no início do filme, quando Eugenia refere uma notícia do jornal sobre uma empregada doméstica que pegou fogo à casa onde trabalhava para destruir aquilo que a impedia de voltar à sua terra natal. Uma grande parcela da estranheza que este filme suscita relaciona-se com a ambivalência desta nostalgia: Gorchakov sente falta da Rússia, mas ao mesmo tempo a beleza de Itália, simbolizada pela desejável Eugenia, impede-o de voltar. A ambivalência é bem visível em certos planos de Tarkovsky que inicialmente parecem decorativos, mas transmitem um desconforto que incomoda, como acontece na morada de Domenico, uma espécie de anticasa em ruínas, invadida por água por todos os lados, em que um pastor-alemão procura mansamente um lugar seco onde possa repousar. Tal como Domenico, que fechou a família em casa durante sete anos para a proteger do fim do mundo, também Gorchakov deixou a família num lugar de onde esta não pode sair, sendo acossado pelas memórias destas pessoas e dos espaços onde ficaram. O momento mais impressionante do filme não é a auto-imolação de Domenico, mas sim, perto do fim, a longa sequência das diversas tentativas de Gorchakov para atravessar a água com uma vela acesa, de modo a cumprir uma promessa feita ao louco. Apesar de tentar três vezes realizar esta tarefa aparentemente tão gratuita e insignificante, tendo de voltar ao princípio sempre que a vela se apaga, Gortchakov cumpre a promessa. A fé, tema central de toda a obra de Tarkovsky, é aqui tratada como um assunto pessoal, quase acidental e despido de transcendência – mas a intensidade é a mesma de filmes com ambições metafísicas como Andrei Rublev (1966) ou Stalker (1979).

21 de fevereiro de 2016

Mistress America


Uma nota prévia de regozijo pela atribuição do Urso de Ouro para melhor documentário a Balada de Um Batráquio, de Leonor Teles, e do Urso de Prata para melhor realização a Mia Hansen-Løve, cujo filme anterior, o muito recomendável Eden, já foi elogiado pelo Cinéfilo Preguiçoso. Tudo isto se passou no 66.º Festival de Cinema de Berlim. Passemos ao filme desta semana. Mistress America é a oitava longa-metragem realizada por Noah Baumbach, não contando com Highball, de 1997, renegada pelo próprio. Mais próximo de Frances Ha (e, tal como este, co-escrito pela actriz Greta Gerwig) do que de While We’re Young ou Greenberg, este filme, ao contrário destes dois últimos, não esboça a mínima tentativa de introspecção psicológica ou de exploração das clivagens intergeracionais. O tom de comédia urbana semeada de referências intelectuais remete-nos para um território bem povoado por Woody Allen, Hal Hartley, Whit Stillman ou Wes Anderson (que colabora frequentemente com Baumbach), mas nenhum destes foi tão longe na desconstrução dos diálogos e situações, que surge ao mesmo tempo como uma homenagem e uma subversão da screwball comedy levada a extremos de requinte por cineastas como Preston Sturges ou Howard Hawks. Como em Frances Ha, em Mistress America abundam os non sequiturs, os intervenientes são caracterizados de forma assumidamente superficial e o argumento e os diálogos evoluem aparentemente ao sabor das peculiaridades das personagens e em particular, por um lado, da ideia fixa (abrir um restaurante) de Brooke (Greta Gerwig) e, por outro, da narração de um conto que a primeira situação inspira a Tracy (cuja intérprete, Lola Kirke, é uma revelação notável). O ponto de partida do filme é a aproximação entre estas duas protagonistas, prestes a tornar-se irmãs por afinidade devido ao casamento próximo (que acaba sendo cancelado) entre o pai de uma e a mãe da outra. Esta premissa, no entanto, não passa de um ténue pretexto para o desenrolar de situações e para um desfecho que nos revela, em retrospectiva, algo completamente alheio à volubilidade e à inconsequência das acções e peripécias precedentes: duas pessoas que procuram o seu lugar no mundo, cujas trajectórias colidiram brevemente e que agora partem para os seus destinos, um pouco mais ricas por se terem visto reflectidas na percepção da outra.

14 de fevereiro de 2016

Andrei Rublev



No filme Andrei Rublev (1966), retratando um período turbulento da história da Rússia que culmina nas invasões tártaras, Tarkovsky oscila entre o épico, o histórico e o cósmico, e o individual, o mínimo e o circunstancial. Por um lado, temos uma produção gigantesca e complexa, com um número impressionante de figurantes e de diferentes focos de atenção em cada plano meticuloso. Por outro lado, somos surpreendidos pela atenção que o realizador presta a pormenores ínfimos, como formigas junto a raízes de árvores, um floco de neve, uma folha de árvore, as tropelias de uma criança, um cão. De certo modo, o filme lembra os quadros de Bruegel, em que diversos pormenores mínimos e circunstanciais são enquadrados num acontecimento histórico que afecta uma multidão, sem no entanto perderem a individualidade que os distingue. Pelo caos da História avança o pintor de ícones Andrei Rublev (c. 1360-1430), tentando perceber quem é como pessoa e como artista. Ao longo do tempo, vemo-lo  sucessivamente como monge errante, juntamente com Daniil e Kirill, em busca de trabalho; como aprendiz de Teófanes; intrigado por celebrações pagãs; debatendo-se com a dificuldade de representar o juízo final numa catedral; e testemunhando a destruição causada pelos tártaros em 1408. Mergulhado numa crise espiritual e artística, Andrei regressa ao convento de que partira no início do filme, fazendo um voto de silêncio e recusando-se a voltar a pintar. O episódio final do filme é, sem dúvida, o mais belo e o mais comovente. Perante o exemplo de um jovem sineiro que dirige centenas de pessoas quando tenta pela primeira vez fabricar um sino sem ter conhecimentos nem experiência para tal, Andrei quebra o silêncio e decide voltar a pintar. O som do sino, ecoando contra todas as expectativas, como que marca o final de um percurso onde couberam a dúvida, a penitência e a descoberta do amor pelas pessoas e coisas terrenas, e liberta o pintor para realizar a sua vocação. O paralelismo entre o jovem sineiro e o próprio Tarkovsky, que aos 34 anos realizava apenas a sua segunda longa-metragem e procurava dominar uma produção de dimensões gigantescas, é transparente mas nem por isso menos eficaz. A obra integral de Tarkovsky estará em exibição no cinema Nimas até 16 de Março.

7 de fevereiro de 2016

Carol



Carol (2015), realizado por Todd Haynes, é uma adaptação de um romance de Patricia Highsmith publicado em 1952 (originalmente sob pseudónimo e com o título The Price of Salt). Como as obras anteriores de Haynes, em particular Velvet Goldmine, Far From Heaven e I’m Not There, este é um filme extremamente cuidado do ponto de vista visual. Em flagrante contraste com o último destes, porém, possui uma estrutura linear (se exceptuarmos o fugaz flash-forward inicial) e é clássico na sua forma. As opções estéticas (cores retro, grão da imagem, guarda-roupa elaborado) transmitem-nos uma evocação nostálgica da Nova Iorque e da América dos anos 50: mais um postal ilustrado do que uma reconstrução realista. A impressão final é a de um filme estilisticamente coerente, que deixa a história de amor entre Therese (Rooney Mara) e Carol (Cate Blanchett) seguir o seu curso, transposta do livro sem distorções de maior, mas que perde algumas ocasiões de se aproximar da subtileza e da singularidade da sua fonte. Por exemplo, o primeiro encontro entre Therese e Carol, no departamento de brinquedos de um grande armazém, é aqui reproduzido com uma decepcionante falta de intensidade. A atenção quase fetichista concedida, no filme, aos gestos, olhares e inflexões de voz só parcialmente restitui o poder emocional que esta história de amor alberga. Saúde-se, no entanto, a desarmante simplicidade com que foi filmada uma cena crucial: aquela em que Therese aceita acompanhar Carol na sua viagem, dando um salto de fé do qual depende a sua vida. Mostrar uma personagem a fazer isto sempre foi uma das missões mais nobres do cinema.

1 de fevereiro de 2016

Spotlight



A semana passada foi marcada pela morte de Jacques Rivette. O Cinéfilo Preguiçoso promete assinalar este desaparecimento com referências à obra rivettiana, se se achar em condições de o fazer sem resvalar para a homenagem sentimental nem para a banalidade biográfica.

Sem ser uma obra-prima inesquecível, Spotlight, de Tom McCarthy (2015) é interessante por vários motivos. Apesar de girar em torno do caso do escândalo dos abusos sexuais da Igreja católica, descoberto na diocese de Boston em 2002, este filme sóbrio não procede a qualquer exploração emocional excessiva da experiência das vítimas. Em vez disso, privilegia, por um lado, todo o trabalho de investigação que permitiu a denúncia deste escândalo e, por outro, a vertente mais colectiva e geral do problema. Os fãs de filmes sobre processos de investigação, como All the President’s Men/Os Homens do Presidente (Alan J. Pakula, 1976) ou Zodiac (David Fincher, 2007), com que Spotlight, aliás, partilha o actor Mark Ruffalo, são brindados com imagens de arquivos mal iluminados, papelada empilhada, telefonemas, entrevistas, pistas só tardiamente compreendidas, pressões, resistências, discussões, contrariedades burocráticas, atrasos, reconsiderações e revelações. Contudo, talvez a característica mais marcante de Spotlight seja chamar a atenção para a responsabilidade geral perante qualquer forma de mal que se silencia ou se deixa passar. No filme Hannah Arendt, sobre o qual escrevemos há duas semanas, a partir do nazismo reflectia-se sobre a facilidade com que se cede ao mal, destruindo os outros por omissão, por falta de atenção, ou por fracasso de pensamento (o conceito arendtiano de “banalidade do mal”). Em Spotlight reforça-se a ideia de que, assumindo uma vertente colectiva, o mal se naturaliza, parecendo insignificante; como observa o advogado Mitchell Garabedian (Stanley Tucci), “If it takes a village to raise a child, it takes a village to abuse one”. Outro dos méritos deste filme é mostrar como os heróis deste caso são afinal indivíduos relativamente obscuros, desvalorizados pelos naturais de Boston como excêntricos, forasteiros e estranhos, mas que, como Garabedian ou o editor Marty Baron (Liev Schreiber), têm o distanciamento necessário para lutarem pela justiça, sem ambicionarem qualquer tipo de reconhecimento por isso. De notar ainda que a banda sonora original, de Howard Shore, é excelente.