23 de outubro de 2016

Café Society


Devido não só à preguiça mas também a uma concentração inusitada de prazos, deslocações, compromissos e falta de disponibilidade mental para estudar a programação, este ano o Cinéfilo Preguiçoso não verá um único filme do DocLisboa. Em contrapartida, não perdeu Café Society (2016), o filme mais recente de Woody Allen (e primeira colaboração deste com o lendário director de fotografia Vittorio Storaro, também responsável por filmes como O Último Tango em Paris ou Apocalypse Now). Café Society passa-se em Hollywood e Nova Iorque nos anos trinta do século vinte, encenando uma defesa ambígua da vida simples, em contraste com os ambientes retratados. A estrutura narrativa divide-se entre uma intriga romântica e uma história de gangsters relacionada com a família de um dos protagonistas, que parece flagrantemente lateral e acaba por desequilibrar o filme. Na intriga romântica, reencontramos o tema dos erros nas escolhas, associado à ideia rohmeriana de que o parceiro mais adequado é não o escolhido mas o encontrado. O encanto do filme resulta tanto da presença e da actuação dos actores nos papéis principais – Jesse Eisenberg (Bobby) e Kristen Stewart (Vonnie) – como do facto de Woody Allen os filmar de um modo inédito. Talvez nunca se tenha visto um Jesse Eisenberg tão contido e resignado como na segunda parte deste filme, reforçando a ideia de que a passagem do tempo traz sempre mais consequências do que inicialmente se pensa. Por sua vez, Kristen Stewart é filmada como uma estrela do passado, mas sempre um pouco deslocada, sem perder uma certa componente quotidiana, contemporânea e independente que a distingue, em oposição a Blake Lively (Veronica), muito bonita, porém isenta de qualquer densidade dramática – no que, aliás, espelha a própria falta de densidade não só da sua personagem mas também dos universos em que circula. O fim do filme, um dos momentos mais puramente românticos do cinema de Allen de há muitos anos para cá, é o seu ponto mais alto. Não sabemos o que acontecerá a seguir, mas naquele momento os protagonistas parecem perceber a verdadeira dimensão do erro cometido. É um momento de paragem e compreensão, coisa tão rara nos dias que correm.