18 de dezembro de 2016

Os Belos Dias de Aranjuez


Baseado na peça homónima de Peter Handke, Os Belos Dias de Aranjuez, de Wim Wenders (2016), apresenta-nos o dispositivo simples de um escritor (Jens Harzer) tentando escrever, rodeado de livros numa casa nos arredores de Paris; no jardim, em torno de uma mesa com uma maçã vermelha e dois copos de limonada, estão sentadas as suas personagens: uma mulher e um homem, com um cão aos pés. O filme resume-se essencialmente aos diálogos da peça, representados quase em simultâneo com o momento em que ocorrem ao autor e interrompidos ocasionalmente por canções provenientes de uma jukebox. A dada altura Nick Cave interpreta ao piano a balada «Into My Arms», numa aparição que nos remete para As Asas do Desejo (1987) – outro capítulo da colaboração entre Wenders e Handke, que já dura há décadas, embora com muitas intermitências. A personagem feminina (Sophie Semin) descreve as suas aventuras amorosas ao longo do tempo, de certo modo satisfazendo o voyeurismo da personagem masculina (Reda Kateb), que nada refere da sua experiência nos mesmos assuntos, tendo apenas algumas intervenções que consistem em perguntas à mulher ou divagações poéticas mais gerais. Visto que Os Belos Dias de Aranjuez depende do discurso da protagonista, um espectador que não se sinta próximo nem da linguagem etérea e abstracta de Peter Handke nesta peça nem do tom teatral e solene com que o texto é enunciado sentirá algumas dificuldades de adesão, apesar da beleza visual do filme. O fim ocorre em tom apocalíptico, sugerindo que talvez o tempo em que ainda é possível ter conversas deste teor esteja ameaçado, prestes a acabar, ou já tenha mesmo acabado. Em suma, Os Belos Dias de Aranjuez distingue-se no panorama cinematográfico actual por uma mistura curiosa de minimalismo e exploração formal (incluindo o recurso ao 3D), nem sempre bem conseguida. Para quem quiser evitar os blockbusters e o caos desta época do ano, pode, no entanto, ser uma boa opção.

Nas próximas duas semanas, o Cinéfilo Perigoso estará em modo de pausa. Bom Natal e feliz ano novo para todos.

11 de dezembro de 2016

House of Games


O filme Hitchcock/Truffaut, pelo qual o Cinéfilo Preguiçoso esperou e desesperou, estreou finalmente em Portugal, ao fim de múltiplos adiamentos. Ainda assim, há muitas razões para valorizar o DVD, uma das maiores invenções da humanidade. Nesta semana, a escolha recaiu sobre House of Games (1987), de David Mamet. A personagem principal deste filme, Margaret (Lindsay Crouse), é uma psicanalista que escreveu um livro de sucesso sobre comportamentos obsessivos e compulsivos. Ao tentar ajudar um dos seus doentes, envolve-se com um grupo de vigaristas liderados por Mike (Joe Mantegna) que estabelecem com ela uma cumplicidade ilusória com o objectivo de lhe extorquirem somas de dinheiro consideráveis. A maneira como Margaret reage quando percebe ter sido ludibriada é radical mas perfeitamente coerente com a ideia central do filme: a incompatibilidade entre o feitio compulsivo da protagonista e o talento para a dissimulação que caracteriza os con artists. House of Games pode também ser visto como a trajectória de auto-afirmação de uma mulher que enfrenta problemas e traumas que nunca são revelados. Essa auto-afirmação adquire contornos rigorosamente amorais – aliás, a moral está completamente ausente deste filme: o interesse e a autopreservação são as forças dominantes, sendo irónico constatar que o único acto altruísta (a tentativa de prestar auxílio a um doente) é precisamente aquele que precipita os acontecimentos, constituindo a força motriz do filme. Visto hoje, em comparação com obras do mesmo realizador como A Prisioneira Espanhola (1997) ou Heist (2001), House of Games pode deixar o espectador com a impressão de já ter visto estes mesmos truques, mas praticados com maior sofisticação. Esta primeira longa-metragem de Mamet pode parecer esparsa e contida, mas é precisamente essa contenção que permite realçar o conteúdo humano das personagens e confere maior poder à história. Crouse e Mantegna assimilam na perfeição o estilo de representação directo e no-nonsense defendido e praticado por Mamet, por detrás do qual se dissimula um trabalho subtil e rigoroso com a linguagem. Mantegna, um actor brilhante mas algo subaproveitado, tem aqui uma das suas muitas colaborações com Mamet, no cinema e no teatro. Quanto a Crouse, a sua interpretação leva a pensar que mereceria mais oportunidades e maior visibilidade numa carreira que, apesar de tudo, conta já com uma nomeação para os Óscares (em 1985 – perdeu para Peggy Ashcroft).

4 de dezembro de 2016

The Shining


Esta semana, em vez de uma estreia recente, o Cinéfilo Preguiçoso decidiu ver The Shining (Stanley Kubrick, 1980) em DVD. Neste filme, baseado no romance homónimo de Stephen King (1977), Jack Torrance (Jack Nicholson), com o objectivo de encontrar a concentração necessária para escrever, aceita o cargo de encarregado de manutenção de Inverno de um hotel no Colorado que encerra durante essa estação. Apesar dos avisos, Jack Torrance não está preparado para o isolamento que se instala quando o hotel fecha e os únicos habitantes passam a ser ele, a mulher e o filho pequeno, uma criança com competências paranormais que incluem telepatia e a capacidade de ver o passado e o futuro. O labirinto no jardim do hotel espelha a estrutura labiríntica do edifício, que, por sua vez, parece replicar a própria desorientação do protagonista, perdido dentro de si mesmo. A dada altura, as fronteiras entre o real e o imaginário diluem-se em sangue e as personagens supostamente reais começam a cruzar-se com fantasmas mais ou menos maléficos que teriam povoado o hotel no passado, alguns deles parecendo vir de um filme que Kubrick só realizaria no futuro (De Olhos Bem Fechados, 1999).  Impondo um ritmo lento que lembra 2001: Odisseia no Espaço (1968), Kubrick delicia-se a filmar os corredores intermináveis do hotel desocupado, pelos quais de vez em quando passam figuras humanas diminutas, tanto dos próprios protagonistas como de outras criaturas imaginadas ou não. A banda sonora de The Shining (Penderecki, Ligeti, Bartók…) é adequadamente sinistra, por vezes de forma exagerada, contribuindo para que o filme seja não só assustador mas também faça rir de vez em quando – nem sempre um riso agradável. Podemos imaginar que todos os horrores do hotel representam as dificuldades com que um escritor se debate quando tem de trabalhar num livro. Já houve também quem dissesse que The Shining é um filme sobre o cinema, cujas personagens sonham as peripécias em que participam. Uma das ilustrações desta teoria é a sequência em que Jack se dirige ao bar vazio do hotel e imagina ou convoca todo um conjunto de clientes e funcionários. Também é nesta cena que o protagonista supostamente contacta com um seu antecessor, que lhe proporciona a estranha revelação de que o próprio Jack terá estado sempre ali – faz parte do elenco do Hotel Overlook. A força de The Shining reside em não se levar demasiado a sério e em não procurar impor explicações ou leituras, deixando essa tarefa, espinhosa e estimulante, para o espectador. Também nisto The Shining se aproxima de De Olhos Bem Fechados.