22 de janeiro de 2017

Yella


Esta semana, ainda interessado nos filmes de Christian Petzold, o Cinéfilo Preguiçoso viu Yella (2007) em DVD. O realizador integra este filme, juntamente com The State I Am In (2000) e Ghosts (2005), naquilo a que chama a sua «trilogia dos fantasmas», identificando como suas referências principais Carnival of Souls (Herk Harvey, 1962) e «An Occurrence at Owl Creek Bridge», de Ambrose Bierce, um filme e um conto com protagonistas que só no final se percebe que estão mortos. Pode-se dizer que Yella, filme que valeu a Nina Hoss o Urso de Prata para Melhor Actriz no Festival de Berlim de 2007, gira em torno de uma jovem contabilista a quem é oferecida uma oportunidade para concretizar os  sonhos e competências profissionais mas se vê obrigada a concluir que a satisfação das ambições não conduz à felicidade que pretendia. Escrever sobre os filmes de Petzold, no entanto, coloca uma dificuldade interessante: os resumos do enredo ficam muito aquém do que é mais decisivo. Referências ao passado da Alemanha, ao contexto da reunificação ou aos problemas do capitalismo, ainda que pertinentes e importantes, se desenvolvidas com demasiada insistência, podem produzir descrições redutoras. Os dois filmes deste realizador sobre os quais o Cinéfilo Preguiçoso já escreveu (Barbara e Phoenix) caracterizam-se por uma componente de estranheza muito próxima da do conto de fadas que desde o início faz o espectador duvidar da narrativa aparentemente simples e realista: em Phoenix, a incapacidade do marido de reconhecer a mulher obriga à suspensão da descrença; em Barbara, o percurso imprevisível e a decisão inesperada da protagonista no final do filme culminam numa cena quase onírica numa praia. De modo semelhante, também em Yella se detecta uma atmosfera fantasmagórica, assegurada não só pela expressão imperscrutável da protagonista, quase sempre com a mesma blusa vermelha, mas também por uma banda de som em que predominam sons recorrentes de água, pássaros e do vento nas árvores, em contraste com os ambientes assépticos dos gabinetes das empresas e quartos de hotel onde se desenrola a acção. Apesar de o filme decorrer nestes contextos mundanos e comezinhos dominados por objectivos essencialmente económicos, a corrente mais misteriosa do filme vai apontando sempre para uma dimensão mais complexa, que se traduz num final surpreendente, de certo modo convocado pela protagonista como forma de autopunição. Esta dimensão misteriosa transforma uma narrativa banal numa história intrigante que nos obriga a pensar.