16 de julho de 2017

Certain Women


Certain Women (2016), o filme mais recente de Kelly Reichardt, está disponível nos videoclubes das operadoras de televisão sem ter passado pelas salas de cinema. Tem três secções, baseadas em três contos da escritora americana Maile Meloy (n. 1972). A acção situa-se sempre no Montana e em cada secção aparece brevemente uma personagem de outra. Apesar de os papéis principais serem assegurados por actrizes carismáticas – Laura Dern, Michelle Williams, Kristen Stewart e a excelente, embora menos conhecida, Lily Gladstone –, o filme presta atenção a personagens que à partida ninguém pensaria poderem inspirar uma história. Deparamos com uma advogada a braços com um cliente problemático; um casal que quer construir uma casa com autenticidade e tenta comprar umas pedras de grés a um vizinho idoso; uma professora de direito escolar que tem de fazer quatro horas de viagem para dar uma aula e a tratadora de cavalos num rancho que, num impulso, decide assistir às suas aulas. A insignificância aparente das personagens, o tom menor e o ritmo lento são traços distintivos do cinema de Reichardt que permitem à realizadora dar a ver microacontecimentos e micro-sentimentos em que mais ninguém repara. Este cinema, no entanto, exige do espectador uma disponibilidade e generosidade que nem todos terão. A terceira secção deste filme, incluindo os momentos poéticos do trabalho no rancho com os animais, é sem dúvida, a mais interessante. O contraste das perspectivas de duas protagonistas muito diferentes que só por acaso se encontram é profundo: para a personagem de Kristen Stewart, as aulas que tem de dar são um trabalho de que se quer livrar; na vida solitária e calma da personagem de Lily Gladstone, as conversas com a professora no restaurante depois das aulas são um momento quase mágico que não quer deixar terminar. A impressão global que o filme transmite é a de uma grande coerência estética e acuidade psicológica, mas também de alguma irregularidade no interesse que as histórias conseguem suscitar. Depois do passo em falso que foi Night Moves (2013), Certain Women confirma Reichardt como uma realizadora a seguir com atenção, e de quem se recomendam vivamente também Old Joy (2006), com Bonnie Prince Billy, e Meek’s Cutoff (2010).

9 de julho de 2017

A Senhora Oyu | O Intendente Sansho


O cinema Nimas continua a apresentar a retrospectiva de Kenji Mizoguchi e ainda bem, porque assim temos tempo para ver os filmes que queremos sem saturação nem stress. Nesta semana o Cinéfilo Preguiçoso viu A Senhora Oyu (1951) e O Intendente Sansho (1954), que têm em comum um dos temas mais caros ao realizador japonês: o sacrifício, quase sempre protagonizado por uma personagem feminina, em prol da felicidade de outrem. Ambos os filmes são adaptações de obras literárias: um romance de Junichiro Tanizaki e um conto de Mori Ogai, respectivamente. As semelhanças, contudo, ficam-se por aí. O enredo de A Senhora Oyu gira em torno do casamento da personagem masculina principal, Shinnosuke, com Shizu, apesar de estar apaixonado pela irmã desta, Oyu, uma viúva forçada pelas convenções sociais a consagrar-se à educação do filho. O filme é um retrato íntimo de três personagens infelizes, cujos desejos são contrariados pela força dos costumes e pelos azares da cronologia: quando, devido à morte do filho, Oyu readquire a liberdade para contrair matrimónio, Shinnosuke está casado com Shizu, que sabe não ser amada mas que aceitou a união para permitir que Shinnosuke ficasse próximo da irmã. A câmara de Mizoguchi mostra-nos uma coreografia de corpos que esboçam aproximações mas se forçam a manter as distâncias, tolhidos pelo dever e eternamente desfasados. O filme vale ainda pela personagem extraordinária de Oyu, uma figura de beleza intemporal que se mantém sempre digna na adversidade. O Intendente Sansho também possui um certo teor coreográfico, mas neste caso os corpos interagem de forma cruel e violenta, sempre em contexto de agressão, coacção e punição. O enredo, centrando-se em dois irmãos que são vendidos como escravos no Japão medieval, pode ser visto como uma representação da emergência da lei e da compaixão num mundo dominado pela prepotência. Duas notas finais sobre os elencos: destaque para Kinuyo Tanaka, que participa em ambos os filmes e entrou em mais de quinze obras de Mizoguchi, e também para Kyoko Kagawa, que desempenha o papel da irmã em O Intendente Sansho e que muitos cinéfilos recordarão de Tokyo Monogatari, de Ozu – era ela quem contracenava com Setsuko Hara no famoso diálogo «A vida não é decepcionante?»/ «É.» O ciclo Mizoguchi prossegue até 19 de Julho.

2 de julho de 2017

A Viagem de Chihiro | Lixo Extraordinário


Estamos no Verão. Além de Paterson, não há nada de apaixonante para ver nos cinemas. O Cinéfilo Preguiçoso recorre à colecção de DVDs e ao que de interessante possa passar na televisão que entretanto lhe tenha escapado. Em A Viagem de Chihiro, uma animação do estúdio Ghibli com realização de Hayao Miyazaki (2001), vista na RTP2, uma menina de dez anos e os pais vão mudar-se para uma cidade diferente. Prestes a chegarem, encontram por acaso um misterioso túnel que vai dar ao que parece ser um parque de diversões abandonado, onde estranhamente encontram um restaurante com comida a que não conseguem resistir. Os prodígios e aventuras que se seguem, com deuses, feiticeiros e espíritos, combinam referências a Alice no País das Maravilhas, Murakami, mitologia grega, cultura oriental e ecologia. Ainda assim, este filme consegue não só surpreender, por meio das reviravoltas do enredo, mas também encantar, graças à beleza e das imagens. É como darmos por nós num sítio onde pensávamos nunca ter estado antes mas que parece estranhamente familiar. A Viagem de Chihiro recebeu o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2002 (ex aequo com Bloody Sunday, de Paul Greengrass), além do Óscar de Melhor Filme de Animação de 2003. Mais recentemente, ouvimos falar deste filme por fazer parte da (discutível) lista dos melhores filmes do século vinte um do New York Times. Por sua vez, o documentário Lixo Extraordinário (Lucy Walker, João Jardim, Karen Harley, 2010), visto em DVD, acompanha o projecto do artista brasileiro Vik Muniz no Jardim Gramacho, um aterro que funcionou entre 1976 a 2012, tendo chegado a receber mais de sete mil toneladas diárias de resíduos químicos e orgânicos. Este documentário tem interesse não tanto por desenvolver uma reflexão digna de nota sobre o universo da arte moderna e sobre a antropologia do lixo, dimensões muito incipientes no filme, mas sim, por um lado, pela informação que fornece sobre este aterro e, por outro, pela participação de sete catadores de material reciclável que lá trabalhavam. Estes tornam-se também assunto da obra de Muniz, que os faz posar para composições que misturam imagem fotográfica e materiais do aterro, posteriormente vendidas para apoiar a associação de trabalhadores. Sem escamotear o horror das condições de trabalho do local, o documentário trata sempre estas pessoas como seres humanos dignos e iguais a todos nós.